Recuperação será lenta no mercado de flores ornamentais do ES
Com o cancelamento ou adiamento de eventos e confraternizações, estima-se que a perda seja de 70% a 80% de toda a produção no Espírito Santo. A notícia boa é que tem produtor se reinventando


A floricultura capixaba ocupa cerca de 163 hectares em 17 municípios capixabas, com 900 agricultores envolvidos no cultivo, o que gera mais de 8.000 empregos na cadeia produtiva e movimenta mais de R$ 10 milhões por ano, segundo dados de 2018 do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper).


No entanto, nem tudo está sendo flores para os agricultores em 2020. Desde o início da pandemia do novo coronavírus (Covid-19), a atividade agrícola se mostra como uma das mais prejudicadas pela crise. Com o cancelamento ou adiamento de eventos e confraternizações neste período, estima-se que a perda seja de 70% a 80% de toda a produção.


Quando o isolamento social passou a vigorar em março, os floricultores apostaram as fichas nas vendas para o Dia das Mães. Porém, a data que costuma ter recorde no calendário registrou 50% a menos nas vendas com relação a 2019. Já o Dia dos Namorados (ontem) nunca foi uma data comercial forte no mercado de flores.



“A floricultura foi muito atingida pela pandemia, e assim como em outros Estados, os produtores de flores e plantas ornamentais vão demorar a se recuperar”, avalia a agrônoma do Incaper, Márcia Varela.


O presidente da Associação de Produtores de Flores e Plantas Ornamentais da Região Sul/Caparaó- ES (Sulcaflor), Clenilson César Barbosa, afirma que os prejuízos acometem principalmente os produtores de flor de corte, com perda de praticamente 100% da produção.


De acordo com ele, os serviços Nacional de Aprendizagem (Senar-ES) e Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-ES) e o Incaper apoiaram os produtores neste período, com fortalecimento das ações nas redes socais, e as vendas foram retomadas após o Dia das Mães, embora mais modestas que em anos anteriores.



“Minhas vendas estão em torno de 60% do normal e aumentando gradativamente. A recuperação vai ser lenta, porque ainda não está tendo evento. Quem trabalha exclusivamente com flor de corte ainda amarga prejuízos”, diz Barbosa.


Demissões e erradicação de cultivos


Maior produtora de flores do Espírito Santo, a família Polletto, de São José do Alto Viçosa (Venda Nova do Imigrante), na região serrana, sente os impactos da crise proporcionalmente ao mercado conquistado nos últimos 17 anos.


As vendas de flores ornamentais, carro-chefe da empresa Roseira Polletto, tiveram queda de 95% a 98% desde o surto da Covid-19, segundo a gerente Elaine Cristina Gratieri.


Gérberas, astromélias, rosas, tango entre outras flores produzidas na localidade atendem o mercado de decoração capixaba, de Minas Gerais e Bahia, mas com o adiamento ou cancelamento dos eventos, os pedidos minguaram.



“O final do ano já é uma época parada. Vieram as enchentes no Estado na sequência e a pandemia chegou para acabar com o ramo de floricultura”, declara Elaine.



Como consequência da crise, a empresa demitiu 12 funcionários, sendo oito do galpão e quatro do suporte de vendas em São Paulo, e erradicou os plantios de gérberas em algumas das 100 estufas da propriedade. Os produtores substituíram as flores por verduras para garantir renda extra e estão readmitindo aos poucos para o mercado de ornamentais não “esfriar de vez”.



“Nós estamos conseguindo fazer giro somente por encomenda com plantas de vaso com algumas floriculturas que comercializam por delivery, pois não estamos arriscando com estoque. Flor de corte não tem mais saída. Os caminhões estão voltando com metade da mercadoria”, conclui a gerente.



O produtor Marcos Emílio Louzada, o “Kito”, de Guaçuí, há um ano pega a estrada para ir até os compradores de flores de pote, em especial a sunpatiens, conhecida também como “Beijo de Sol”. As viagens foram mantidas, apesar de reduzidas neste período de pandemia, mas segundo Kito, as chuvas do primeiro trimestre prejudicaram mais os negócios que o surto da Covid-19.


O floricultor considera o caso dele uma exceção, com menos prejuízos que quem produz flores de corte na região. “Criei esta nova rota comercial e acabei fidelizando clientes no último ano. Com isso, estou conseguindo caminhar neste período, sempre levando álcool gel e usando máscara”, diz.


Consultorias on-line e até funerais como saída para negócios


O Instituto Brasileiro de Floricultura (Ibraflor) previu falência de 66% dos produtores de flores e plantas ornamentais em todo o Brasil. A expectativa era de um cenário ainda mais devastador após o Dia das Mães, com o desemprego estimado de 120 mil pessoas nas áreas produtivas.


No sul do Espírito Santo, a pandemia despertou o espírito empreendedor de produtores e profissionais agrícolas. É o caso da Helen Lima, de Muqui, associada à Sulcaflor. Com o cancelamento das feiras na cidade, a produtora passou a oferecer consultoria presencial para renovação de canteiros com dicas de adubação, podas entre outras, obedecendo os devidos protocolos de saúde.



“Mudei o foco para as pessoas em casa renovando jardins e mini hortas. Foi o caminho que encontrei. A gente vai se reinventando, mas não está fácil. Vendo esporadicamente flores de pote e perdi muitos cultivos sem saída comercial no período”, relata Helen.



Na propriedade em Murubia, a 1 km do centro de Muqui, a produtora vai colher a segunda remessa de aster mariano, flor tropical também chamada de “Sorriso de Maria”, e está conseguindo retorno com a venda de angelônias, segundo ela, delicadas e resistentes ao sol. Os arranjos para funerais também têm sido uma saída importante na cartela de serviços, conta Helen.


A engenheira agrônoma e mestre em agroecologia Ana Terra é sócia da empresa familiar “Mãe D’Água Consultoria”, de Vargem Alta, e também presta assistência técnica e gerencial em floricultura para o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) do Espírito Santo e Minas Gerais.


Ela e a família promovem palestras e cursos e desenvolvem projetos paisagísticos, mas devido ao surto do novo coronavírus, trocaram as visitas pelo atendimento on-line, embora reconheçam a importância do atendimento presencial em alguns casos.


Os clientes enviam fotos ou fazem chamadas de vídeo para continuar recebendo dicas de cultivo, adubação e tratos culturais necessários e, assim, garantirem a manutenção correta de jardins.



“Para nós profissionais autônomos, sem renda mensal fixa, está sendo um momento de bastante criatividade. E percebi que de fato existe um mercado, pois estão surgiram clientes com pequenos jardins e espaços que, após dispensarem as pessoas responsáveis, assumiram os cuidados”, diz Ana.




Além da consultoria pela internet, a família produz flores tropicais há mais de 30 anos no sítio localizado a 5km da sede de Vargem Alta. Com a limitação imposta pela pandemia, Ana, a mãe, Solange Bravim, e o pai, Eduardo Baleia, estão fortalecendo a divulgação dos negócios nas redes sociais e realizando entregas para clientes da região e parceiros na capital.


Terapia


Para Ana Terra, cuidar de plantas em pequenos espaços da casa é uma atividade terapêutica neste momento de quarentena.


“A presença das plantas faz bem, elas trazem harmonia. E sabendo que tem assistência a distância para cuidar delas, os clientes ficam mais satisfeitos. Além das recomendações corretas para garantir plantas bonitas e bem cuidadas, o ato de cuidar está sendo uma terapia para muitos”, finaliza.


 



FONTE: SAFRA ES 


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